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Moral, Moda e Roupa

 by Erika Lee

 

“…no deserto de idéias em que hoje se vive nos países ricos, assediados pela miséria, estão ungindo a moda, numa espécie de filosofia, de crença dos poucos e eleitos, que precisam sentir que pairam acima da multidão. A moda ocidental está virando uma espécie de uniforme das tropas de elite que combatem a pobreza. Esse combate por enquanto está sob a égide das Nações Unidas. E ainda ninguém propôs a volta dos fornos crematórios, por exemplo, livres agora do ranço racista, abertos a qualquer indigente. Guarda-roupa imponente sempre houve para tais ocasiões Basta pensar nos autos de fé. Só que agora também não há mais o ranço religioso. A moda está livre. E é absolutamente moral” A. Callado, 1993.

 

 Constatamos no texto de Callado a existência da moda como moral. Roupas que imperam as diferenças de classes, ostentação, com um aval de organismos superiores, direcionando no pacto de vestir o poder.

 A moda como moral resulta numa posição de enclausuramento para o sujeito, limitando o sentido da indumentária. O sujeito nesse caso silencia pelo culto às aparências, na forma de distinção. Sustentar a imagem assumida. Veremos a seguir as questões relativas ao sujeito do desejo.

 

                                              "O Beijo" (1901-1904). Escultura de Rodin.

O DESCENTRAMENTO DO DESEJO

 

 Desejo...para Freud, todo sonho é a realização de um desejo; o homem deseja acordado e sonhando. O desejo não acaba. Tem um ciclo, para Schopenhauer, desejar, saciar, entediar e desejar novamente. Uma constituição pulsional e não instintiva. Este desejo que fez decair o homem do paraíso, segundo a Bíblia.

 Assim o sujeito não sendo dono de suas ações, vamos descentralizá-lo.

 Para controlar o desejo, precisamos de algo que nos faça sentir seguros, no controle da própria vida, respostas justas, honrosas e definititvas.

 

PROMESSA DE PRAZER E MORAL

 

 Entender a moral como busca incondicional de prazer, dirige as ações num sentido idealista. O prazer em questão é uma superposição entre o sujeito que considera um ideal, noção de prazer que vai além de satisfação imediata e passageira.

 

 Se a moral não restringe à coação, não deve ficar limitada a uma única instância psíquica, o supereu, nem ao sentimento de obrigação.

 

A atribuição de moral implica de saída supondo que a moral é algo que se refere a adoção de determinados comportamentos.

 Do mesmo jeito que a moral envolve determinações típicas das diferentes formas da presença do eu humano, a constituição humana não se restringe a esse único nível. A função simbólica na linguagem humana quem permite situar o inconsciente num escape de certezas onde o homem reconhece como eu. Assim, ultrapassa a análise da moda e da roupa em sua dimensão moral e de imponência, respectivamente. Em conseqüência só resta acentuar o compromisso moral em eludi-lo, denunciá-lo e superá-lo. Inevitável aproximação de que o ódio quem conserva a moral.

 

 

 



Escrito por Erika Lee às 17h28
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Moral, Moda e Roupa

         

AS RESPOSTAS DA MORAL

 

                                        

 

 

 A criação dos padrões de conduta é cumprida e seguida segundo os ideais. O discurso do moralista permite estar na posição de quem tem as respostas junto à maioria. Mensagem de constante combate as vascilações e renunciando o ser desejante.

 A razão moralista espalha o mito da bondade como forma de introduzir ideais. Enquanto inclui limitações e desigualdades quanto a dever a cumprir, sua combatividade adquire legitimidade. Ele esclarece numa dupla implicação, a dívida e a exaltação. Impasses e limitações que trazem “conseqüências”.

 

RETORNO DA SERPENTE

 

 Adão e Eva. A serpente que enganou Eva e depois enganou Adão. Houve desejo, em que um terceiro alimentou o proibido, caindo em consciência pelo erro em temer à Deus. Há sempre uma serpente acossando um desejo.

 Incluir o sujeito do desejo implica em ética e não em moral. Regular o desejo é dividir e autenticar a limitação. Havendo o desejo, considera-se a presença de não realizado, que fica insistindo em se realizar, o inconsciente.

 O humor manifesta perante esta incompletude do semelhante. Nem na religião e nem no marxismo e nem Freud conseguiram digerir a situação. A ideologia não é um lugar onde o sujeito se encontra, mas podemos entender que tanto a moral como a ideologia se entrelaçam, superpõem entre si.

 

“A noção da disposição do bem é essencial, e se colocamos no primeiro plano vem à luz tudo o que significa a reivindicação do homem que conseguiu, num certo momento de sua história, dispor de si mesmo.

 Pois, é claro que essa função do bem engendra uma dialética. Quero dizer que o poder de privar os outros de seus bens, eis um laço fortíssimo de onde vai surgir o outro como tal.

É um fato de experiência do qual é preciso que vocês se lembrem constantemente na análise o que se chama defender seus bens é apenas uma única e mesma coisa que proibir a si mesmo de gozar deles.

A dimensão do bem levanta uma muralha poderosa na via de nosso desejo. É mesmo a primeira com a qual lidamos em cada instante e sempre” J. Lacan

 

A ideologia fixa uma idéia única no pensamento, se apresenta como solução para tudo. E a moral ecoa a questão do desejo, enquanto resiste a ele. O primeiro é convicto e o segundo um chato.

 

 Por isso a formação da consciência e proibição partindo deles. Limitação para manter a ordem social.

 O tempo no marxismo torna em pensamento de produção econômica. Os objetos produzidos pelas indústrias devem ser consumidas, desejadas. Nasceu as grandes maisons, grifes e etiquetas.

 Na corrida da produção da moda, consideramos o estilo

 

“Que é tanto o de sua expulsão do paraíso, quanto o de se aventurar pela primeira vez no espelho, vestido pela imagem do semelhante. Vestido por roupagem simbólica e vestido com imagem do semelhante. E é por ser vestido com imagem que sua roupa se constituirá como uma forma de se atualizar, no nível do imaginário, sua posição com o semelhante.” Mauro Mendes Dias, 1997.

 

                              

                                Desfile de Dior, julho de 2008. Paris.

 

AGRESSIVIDADE, O CHATO E O CONVICTO

 

  A agressividade traz uma relação de alienação à imagem do outro. A cada menção do eu, a sombra da presença do semelhante. Vaidade, narcisismo, aparências são banidos do projeto unitário. Porque na verdade a razão inabalável não suporta a presença de relação tensionante com o semelhante. Justamente esta presença do semelhante que implica a questão do desejo.

 Desta maneira a moral e a ideologia superpõem na razão unívoca com bases sólidas na crença do amanhã. Repare no discurso do moralista, ele quer o bem do sujeito, para ter prazer, bem cultivado, que se tece suas ações. Para bem gozar futuramente, exige-se sacrifícios hoje. É com a moral que as crenças se mantém.

 Embora Marx e Freud se recusam a aceitar um princípio unívoco. Deslocam em duas causas, histórico e inconsciente. Permite declinar a razão da unidade e alinhar a pesquisa numa racionalidade científica.

 

TEMPOS E POSIÇÕES

 

          

 

 Tempo é a exaltação do hoje para haver o amanhã. Pregação das condutas. Um combatente encarregado de recusar a moda e a psicanálise. Os dois acossam o desejo. A entrada do sujeito do desejo revelou-se através de uma análise das posições em curso sobre a moda e a roupa, desde onde ficam reservadas a compartilhar, tão somente, função de domínio e de prestígio. A moral é um fato inerente do sujeito do desejo, uma reflexão sobre o eu humano. Na medida em que a função simbólica permite abordar o inconsciente e ética do desejo para além dos limites de um discurso programado das ações, se ganha mais uma importância na moda e roupa.     

 O que nos permite através da análise da moda e roupa em desnodular diferentes níveis de complexidade do valor afetivo da roupa, questão do corpo, da sexualidade, da morte.

 Semana que vem, aguardem...

 

REFERÊNCIAS

 

CALLADO, A. “Estilistas tecem moral e filosofia”. Caderno Ilustrada. Jornal Folha de S. Paulo. Pág. 4-6. Edição de 23 de outubro de 1993. São Paulo.

 

DIAS, M. M. Moda Divina Decadência. Editora Hacker. São Paulo. 1997.

LACAN, J. Aética da Psicanálise. Seminário VII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

 

Imagens: net

 

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Escrito por Erika Lee às 17h19
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